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Pederneira. Substância muito usada no fabrico de corações humanos. (Ambrose Bierce)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O Laicismo é necessário?

Antes de qualquer argumentação, uma pergunta se faz necessária: O Laicismo é necessário? A sociedade brasileira atual já não é laica? Já Não deixamos de queimar pessoas, obrigar cultos, não somos (Brasil) o mais religioso dos países; sincrético – “católico” – não somos uma democracia racial, um país de tolerância moral até mesmo questionada por sua flexibilidade? Enfim, existem motivações para um protesto? Ainda hoje, entre nós, modernos?

Parece que não podemos concordar com muitas das alegações aqui apresentadas, tão usuais. Ao mesmo tempo, é preciso compreender com mais cuidado os limites e os falsos limites aqui, entre uma real liberdade e um contexto de subjetivas limitações; quero dizer, até que ponto somos tolerantes, e até que ponto essas tolerâncias estão incompletas. Sem dúvida, a liberdade de culto é geralmente respeitada. Desconsiderando um caso ou outro de algum grupo protestante mais radical, ou seita afro-brasileira, cada religião parece se desenvolver ao seu modo de maneira razoável. Nem só de crenças é feita a questão religiosa, mas também de sua refutação, ou sua negação, o Ateísmo ou o Agnosticismo. Não se desenvolvem em templos, não oferecem esperanças futuras de redenção, não estabelecem códigos morais específicos, mas, e até mesmo como resposta às incoerências das religiões frente ao mundo atual, a refutação e a negação do religioso crescem e com vigor. Especialmente no ambiente “livre” da Internet, com grande concentração de jovens com larga fonte de conhecimento e infinitos espaços de debate. O Ateísmo e o Agnosticismo são realidades em formação nacional, e em outros países de maior tradição liberal representam grandes partes de suas sociedades, e ainda com embates sobre os novos problemas do Laicismo hoje. O que eu quero dizer é que, embora todos os horrores combatidos pelo Iluminismo tenham deixado de existir na sociedade ocidental atual – no mínimo, oficialmente – existem outros parâmetros em nosso tempo sobre o tema do Laicismo ainda conflitantes: a disparidade entre a tradição religiosa que influencia a política e as políticas desenvolvimentista de pesquisa genética e ensino formal, também a crescente negação religiosa como impacto e ruptura com sua manifestação enquanto ideografia (o epistemológico e estético da visão transcendental).

Para a primeira questão, uma resposta categórica: NÂO. NÂO é possível admitir interferência religiosa em casos de pesquisas científicas e na atividade pedagógica. Embora a religião católica em especial apresente um logo histórico de cooperação com os governos brasileiros – e o episódio da Teologia da Libertação é uma exceção e não a regra para a antiga e reacionária instituição – nenhuma religião tem hoje por Direito preponderância nos assuntos da Coisa Pública Brasileira. Legitimamos um Estado laico, confinamos ao plano do individual o direito de culto, para preservar a coletividade de qualquer tirania ideológica. Uma realidade que pouco sai do papel em muitas circunstâncias. Como no caso dos homoafetivos, no qual direitos individuais de casamento civil são bloqueados por setores sociais fundamentalistas, ou no caso do neoateísmo, marginalizado nos meios midiáticos convencionais. Mas, diriam alguns, enquanto associação ou mesmo no mero plano do indivíduo não é possível desejar e negar certas atitudes, refutar certas maneiras de pensar? Sim, mas um “sim” que precisa ser especificado.

Eu sou ateu, mas se eu fosse um cristão fundamentalista, teria direito protegido pela coerência e pela Lei de não concordar com a divindade de Buda, as profecias maometanas e não aprovar o casamento gay. Definitivamente, nenhuma igreja cristã é obrigada a celebrar uma forma de união condenada por seu livro sagrado (e no entanto curiosamente muitos casos de homoafetividade são verificados entre seus representantes considerados mais castos), mas o fato do Cristianismo ser a religião mais popular, ou ser representado e apoiar determinados veículos de comunicação e mesmo políticos, não justifica atacar os direitos civis de uma pessoa por não comungar de suas crenças. No rigor da lei, ser uma ideologia grande ou pequena não se altera em relevância; são todas iguais, ou seja, nenhuma vale como regra ou se impõe. O casamento civil homoafetivo nada tem com o Cristianismo, e se o problema existe, e se deputados se sentem pressionados por seus representantes que desejam impor suas crenças, então o nosso Laicismo não está correto ou completo. O Cristianismo não vale na minha casa, na minha moral, ou na rua: ele vale nas igrejas cristãs, na ética de seus seguidores, e nas muitas versões infalíveis e contraditórias da Bíblia.

Sim, o Laicismo é necessário. O debate, atualíssimo. Não como antes, mas sim como agora. Temos todos muito o que debater.

A Segunda Questão é mais fácil, e ao mesmo tempo mais complexa. Como deve ser o diálogo entre a religião e a negação da religião? Como na primeira questão, minha aversão não pode ultrapassar meus limites individuais ou coletivos. Posso não concordar com a veracidade do Criacionismo, mas não posso pretender aboli-lo, no mínimo, como visão alternativa da biologia oficial. O crescimento da negação religiosa reflete a ruptura com antigos modelos e visões de mundo, é uma corrente de pensamento que não encontra apoio em sólidas instituições, e assim não é defendida de maneira sólida por grupos políticos ou de mídia fora do longo e embaraçado espaço virtual. Porém cresce, e se afirma. De uma maneira geral as religiões condenam de maneira contundente a ausência de seu elemento primário: fé. Sem o desejo de aceitar, grande parte da estrutura ideológica da religião perde seu sentido dentre seus elementos ilógicos. Um religioso pode muito bem acreditar que um ateu merece arder eternamente no Inferno, embora seja uma visão sádica, não sou eu quem impedirá qualquer um de pensar o que quiser. Em resposta, é parte do dever cívico dos religiosos a aceitação de elementos civis que abram mão de suas prerrogativas. Não é uma conveniência muito aceita. Muitos religiosos continuam propagando a rivalidade e o proselitismo contra o que consideram uma afronta aos seus modos de pensar; frequentemente, colocam a culpa na falta de fé pelo esvaziamento de suas mensagens. O Ateísmo e o Agnosticismo são posturas reais, e que estão aí, e que merecem o mesmo respeito que necessitam prestar aos cultos religiosos todos (nem sempre prestados, aliás, e não se pode negar).

terça-feira, 28 de junho de 2011

Moscas


Eu detesto moscas!
Mosca, moscas, só moscas por todas as partes.
Acordo e sinto na ponta do dedo, traquina, uma mosca descansar.
Saco... Depois é lutar contra uma outra detestável pela cocada

Sai!

Nem a minha cocada matinal tem paz agora, mundo do cão, mundo das moscas!
Então eu vou para o trabalho, um trabalho igual a qualquer outro...

Ganho pouco e trabalho muito. E agora, na droga do Verão, ganho pouco, trabalho muito e vivo com moscas. Moscas nos documentos, moscas nos copos, moscas nos doces, moscas e suas patinhas por todas as partes, barulho de moscas em todos os lugares. Moscas.

Depois do trabalho eu prefiro caminhar, noite quente, um calor abafado. Ando pelas ruas devagar, olhando os muros, as pessoas andando de lá pra cá, a rotina de uma noite quente. Ninguém gosta de ficar em casa com um calor assim... Nem as moscas. Sento em um banco de praça, cansado, o dia foi mais cansativo que o normal. Mesmo dentro da mesmíssima rotina de sempre. Olho os casais de namorados, os homens parados e as mulheres inquietas, abraçam, afastam o corpo, falam, riem. Já vi a maioria, mas não com os companheiros de agora. Paixão pueril. Coisa de gente comum. Não de um observador de moscas.

Eu reparei semana passada uma coisa importante, reparei que passo a maior parte do meu tempo afastando moscas. Afastando moscas em casa e no trabalho, das comidas, dos documentos; não é possível, não é possível que só eu tenha notado o fato. Hoje mesmo, eu falei “Sai” umas quinze vezes, ou até mais, preciso prestar mais atenção. O banco começa a incomodar. Bancos de praça são muito desconfortáveis, são blocos feios de massa e feitos pra sentar e levantar rápido. Quando eu começo a levantar o barulho vem, claro, o barulho da mosca. Uma mosca pousa no banco, ao meu lado, ela veio do nada; ou não; Só sei que a mosca ficou lá parada, eu olhei pra ela, muita coincidência. Até demais.

No outro dia eu acordo e sinto novamente, não só na ponta do meu dedo, mas também no meu nariz. Enorme na frente dos olhos. Afasto a maldita rápido:

Sai!

Coisa irritante, com a cocada matinal o mesmo. Eu realmente gosto de comer cocadas quando acordo, é um hábito antigo, não interessa. O importante é que a luta hoje foi bem mais árdua, acho até que foram umas três detestáveis. Estão aumentando. No trabalho foram, no mínimo, uns trinta “Sai”. Com toda a certeza as moscas estão aumentando seu número populacional, ou pior, prefiro nem pensar. Na hora do intervalo é possível ter uma visão mais ampla do problema. Notei que uma mulher do primeiro setor afastou a mesma mosca quatro vezes do suco, também que uma outra mosca pousou em um branco do segundo setor, depois no macarrão de um moreno do quarto setor e então na careca de um gordo do primeiro setor. Estranho... Branco, quatro, segundo... Estranho...

Na caminhada noturna o mesmo, moscas nos muros, perto das pessoas. Como não notei antes? Moscas. Moscas por todos os lados, como é possível? Eu parei na praça, olhava para o alto, precisava pensar. Não estou exagerando? Talvez sim, claro, é só o calor, eu preciso de férias ou de uma noite na praia. O trabalho anda irritando demais. Resolvi voltar para casa, para uma boa noite de sono. No portão - Piada - Uma mosca. Até ri, peguei um pedaço de madeira no chão cautelosamente, então bati rápido; certeiro; O flagelo caiu morto.

Preciso mesmo é de um ar condicionado, tranco tudo e fico no fresco, e livre das moscas. Entrei e vi televisão por um tempo, um programa sem graça de humor, depois ao banheiro, realmente precisava. O piso todo molhado, porcaria, eu preciso é de uma empregada doméstica. Começando a pensar então... Quando eu comecei com a coisa de reparar nas moscas? Não lembro. Só lembro de afastar moscas de cocadas. Eu também - Oh, Droga! Merda de banheiro, ai... Escorregar no banheiro, muita gente já morreu assim, droga, não posso culpar as moscas por escorregar.(...) Acordo no meio da noite, merda, nem comi tanto hoje. No banheiro a dor de barriga é forte, parece que aumenta só por estar lá / Vou vomitar / Que nojento. Estou péssimo, só pode ser aquela comida do serviço, desgraçados, não como mais aquilo. Preciso de férias, e limpar a sujeira. Água, vômito, está asqueroso isso! Vômito maldito, que coisa... Mexendo? Mas... Mexendo... Parecem vermes. Vermes?!

Vermes no vômito, têm vermes no vômito. Merda, merda, merda. Vou matar aqueles cozinheiros! Vou é limpar a boca, comecei a sentir malditos vermes na boca também, nojo, nojo. /Eu não tenho nem forças pra limpar tudo isso agora/. Droga. Limpar a boca na pia mesmo. Preciso de um remédio e água, sei lá, geladeira, eu devo ter alguma coisa. Vamos ver... Mas... Quê isso? Parece um... Uma massa, gosmenta, coisa estranha, não coloquei isso ai, é comida estragada? Mas, a massa parece, parece mesmo. Puta! /Fecho a porta/. Estou mal, to ficando doido! Inferno!

Volto debilmente para o banheiro, piorando, vou matar aqueles caras. Entro e vejo

Sim,
e posso até mesmo gargalhar!

Os vermes eram moscas. Eram moscas, moscas, moscas, moscas por todas as partes!
Enormes, negras, criaturas nauseabundas, eram moscas, pequenos e lindas moscas!
Ri e chorei, eram moscas, vou rir muito e soluçar, eu não acredito, eu sei que é verdade. Ando até a cozinha e vejo a geladeira destruída, a massa gosmenta com suas asas largas e seus olhos vítreos...

Belzebu!

Monstro desgraçado! Morra!
A sala, eu quero sair... Sair? É inútil.
As moscas estão do lado de fora, olhe a janela, estão por todos os lados!
Nuvens de moscas voando pelo céu, estão nas ruas, nos esgotos!
É engraçado, é triste, é mosca. E o monstro sai da cozinha, coloca suas patas na sala, ele é grande demais. As paredes começam a rachar, as moscas do banheiro começam a voar, o mundo foi tomado por elas... Veja as moscas, estão atrás de você!
Ele vem! Ele vem! Livrar, fugir. Já está aqui... Vá embora! Vá embora Belzebu!
Bater, bater, bater, bater, bater... Bater... Bater...


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Depois de quatro dias os vizinhos de João Ferreiro Filho ligaram para a Polícia, um fedor insuportável emanava da residência. Infelizmente não foi o único motivo, um menino de oito anos entrou na casa naquela manhã para recuperar uma bola de futebol, e viu. O menino viu o mesmo que os policiais patrulheiros, legistas e toda a sorte de profissionais forenses viram posteriormente. João Ferreiro Filho caído na sala, muito sangue no chão, na parede e principalmente no próprio rosto de Ferreiro. Determinada pela autópsia e todos os outros procedimentos legais como Causa Mortis uma parada cardiorrespiratória, gerada por ataques epilépticos. Toda a parte frontal do Neurocrâneo foi destruída por fortíssimos impactos externos, fator que proporcionou grandes discussões entre os conhecedores de traumatologia Forense; simplificando, toda a parte frontal da cabeça de João Ferreiro Filho foi destruída por batidas na parede, ele destruiu todas as estruturas da testa até chegar ao cérebro. Uma visão nefanda em um caso praticamente impossível. João Ferreiro Filho tinha uma lesão cerebral, origem desconhecida, lesionado há muito tempo. Por algum fator não determinado à lesão intensificou sua ação na pobre cabeça de Ferreiro nos últimos tempos de vida, algo entorno de seus seis ou oito últimos dias. O ápice do problema foi à queda no banheiro na noite da morte, na verdade, é quase inacreditável que tenha vivido tanto tempo, e ainda mais trágico que tenha passado pelo processo totalmente sozinho. Nem se pode imaginar como foram seus últimos momentos. Claro, uma grande investigação foi feita, o caso foi famoso por alguns dias, entre os estudantes do meio ele ainda é. Uma curiosidade são as muitas caixas de cocadas caseiras que João Ferreiro Filho mantinha em seu estoque, a maioria cheia de moscas mortas. Moscas, dá pra acreditar?


Maio, 2008

domingo, 22 de maio de 2011

Jerubaal



Um sujeito na Bíblia que me agrada, é Gideão. Li todo o livro preto; tirando um ou outro relato, uma narrativa avara de qualidade. Mas Gideão é diferente. Tem aquela estranha categoria de coragem de obstinação (O único tipo de proatividade vista com bons olhos pelos temperamentos por assim dizer apostólicos). Certas criaturas não deixam nunca de entender as paixões como inclinações vis; na recusa, ou em um prazer carregado de simbolismo negativo. Enfim, tema para outros momentos...

O mais interessante em Gideão é seu caráter. Para quem não sabe, Gideão segundo a lenda foi encontrado por um anjo [i]malhando trigo no lagar[/i]. Algo como tomar o café na Copa. Com todo o solilóquio comum do livro preto, nosso herói não se comove e exige provas científicas de seu, por assim dizer, Chamado. É o único gênio crítico em todo o texto além de Tomé e Jó. Por fim, depois de mostrar teimosia, animosidade, e ceticismo, adere aos planos bélicos absurdos inexplicáveis e invencíveis da Divindade. E para concluir seu estranho temperamento, renuncia a posição de liderança merecida.

Não é também meu objetivo fazer criticismo bíblico aqui. Quero apenas registrar a impressão da situação que pretendo relatar, pois, não foi outra a atitude que presenciei. A coragem de obstinação, como chamo, é talvez a semelhança que associo entre um causo e outro. Aquele rapaz de ânimo pacífico, olhar perdido, conversas desconexas. Eu me pergunto ainda. Eu me questiono as motivações de um ato tão contrário ao seu feitio.

Coragem de obstinação. Não é uma característica muito observada. Estou tentando esclarecer, repassando mentalmente, deixar claro para a minha própria consciência, uma dificílima situação moral, e profundo caso de consciência. Um amor de renúncia quasimodesco, ou a paulina confiança no martírio, fé sebastiânica. Existem efetivamente pessoas assim. São brandos e cordiais, verdadeiras bordas de rios, mas no momento oportuno capazes de avançar pelo fogo cruzado, permanecer entrincheirados, manter uma ideia fixa ou uma lealdade prejudicial até a morte. E não são necessariamente gênios, podem ser rasos de intelecto. Do meu círculo mais íntimo, já passaram alguns assim. Não é o caso.

Eu nem conhecia bem o sujeito, e não foi um problema. Posso dizer que fui feito para a chancelaria. Sou um logista, mas de boa-fé com os instintos e acasos de percurso. Em verdade, sou bem [i]romano[/i] no assunto: todas as inclinações instintivas são boas e justas. O sujeito não. Empalidece, ruboriza, procura meios e modos, parece atabalhoado em seus pudores.

Certas criaturas podem viver em plena e inalterada paz. Eu não invejo uma tamanha quietude. Mas aqui, com os jornais clamando sangue, agentes varrendo as ruas e os escritos de furor, as agitações e os rumores correndo de boca em boca, uma natureza delicada assim... "Fugir?"; perguntou, como se vivêssemos o mais extraordinário conforto. Ele me adora, apesar de tudo. Sou um bruto bem flexível, diz. Mas sou bruto.

O amigo leitor pode imaginar uma Barcelona da Guerra Civil, uma Alemanha do pós-guerra, uma correspondência de um país do norte africano, ou que sou um detetive investigador analisando projetos de UPPs, ou mesmo que nosso amigo não passa muito de um curioso aventureiro escritor, ou jornalista, aventurando pela região perigosa Oeste, Fronteira, ou mais longe uma base espacial no cerco de uma colônia humana rebelde. O cenário não faz diferença, e por questões profissionais não tenho a menor vontade de ser mais claro. Detenhamo-nos no caso de consciência.

Paguei o café. Disse de modo lato toda a situação. Nos últimos tempos, resguardo meus pés bem longe dos verdadeiros conflitos. Muitos podem crer que as minudências da vida social representam desafios. Representam. São desafios que ignoro de todo, então, por assim dizer, não me preocupam. Um ponto de quase semelhança, pois ele é uma espécie de trânsfuga, eu não. Ele escutou com viva e analítica atenção. Eu via a ingenuidade palpitar em seu rosto; o Inferno é um certo tipo de brilho profundo no olhar, e que só alguns reconhecem. Blasfemos, naturalmente.

Mas eu falava em Gideão... Não sei ao certo. Acredito que por ter se apresentado como cristão, tenha remexido em meu cérebro velhas lembranças da infância. Um Gideão, com um chamado messiânico de compromissos, sonhos. Falava muito. Vibrava visivelmente suas ideias. Um tipo fascinante. Eu não tinha aqui alguns objetivos complexos? No fim das contas, eu faço o meu lado, e é bem nossa diferença: Farei o meu, farei minha defesa, ou minha pergunta, abandonarei minhas convicções ou afirmarei, negarei e talvez aceite pela vista das mãos furadas; ele não, confiante demais no curso natural das coisas, comodamente afeito aos seus possíveis, e assim mesmo, um nada o faria mudar de ideia. O infeliz quer ficar e ver, ou melhor, ir. Não posso deixar de notar um assim.


Ver? Nada para ser visto. O declínio agudo de todas as coisas. Para além do horizonte, ruas abandonadas, barreiras de contenção, o Juízo Final. Mas ele deseja. Ardendo de desejo de ver e compreender - principalmente compreender - como um anjo curioso que desce ao Inferno para aquecer os pés. O mais absurdo de tudo: tem minha idade.


Eu sou uma espécie de luz tênue no mar escuro no qual meteu os joelhos. Quer dizer, acompanho seu raciocínio e não finjo não perceber sua presença. A gente daqui é resistente e evasiva. Ele deu uma sorte danada. Semana próxima embarco para a região contestada.


Ele espera ir também. Está muito confiante. De ir, por assim dizer. Eu não gosto de manter relações de dependência. Mas sou um diabrete sociável, não? Quando convém. Ele é um espelho, e o efeito me liga. Sou eu, quase materialmente, em sonhos e utopias, no frescor de crenças. Eu sou ele; embrutecido. Somos um passado e um futuro caminhando para um presente próximo.


Ele sai. Parece meditar em possíveis rascunhos para o dia. Parece em sua esperança calma e impenetrável aguardar a descida, o muito além do crepúsculo vermelho alaranjado que observo. Eu apenas guardo comigo, ideias dos meus dias duvidosos.


- Querida, traga algo decente agora. Com álcool.

sábado, 14 de maio de 2011

Cronismos

Comentários levianos é tudo que desejam. Pequenas banalidades da vida. Pequenas minudências de um detalhe e outro, e pupilos indulgentes. Defitivamente o trabalho contratado de terceiros não me agrada. É da natureza da canalha o gosto pelas pequenas vitórias, mas, e é o orgulho quem diz: não existe diferença.


Vez por outra é oportuno.


O café esfria, os papéis formam um pequeno monte. São as cantadas, réplicas e tréplicas. Os amores extravagantes, os causos mais banais, as artificialidades mais incoerentes para o tédio animoso. Conheço a pessoa, em especial o artista, de acordo com seus gostos dentro de certos assuntos: se ele fala daquilo que faz, daquilo que sonha, daquilo que pensa dever agradar, ou daquilo que tenta esquecer.


O Futuro, verdadeiro juiz de todos os atos, escolhe ao seu gosto uns e outros. Não é comum, mas até mesmo um antigo clássico pode ser bem ridículo. A largura de um discurso, a perenidade de uma sensação, não são virtudes relacionadas com o prestígio, e aqui, o Destino pinta suas grandes ironias, e troca o rei pelo bobo vez por outra.

No mínimo, é preciso viver na liberalidade de um cortesão. Então, vez por outra a mão declama às generalidades usuais. o bonachão da vida, do modernismo esclerosado, Era da lassidão, da confusão, a verossimilhança da hora. Com palavras mais simples, naturalmente.

terça-feira, 29 de março de 2011

O Espírito de Osíris


Seria o velho berbére, a herança de Barca? A Força da Ancestral África?

Seriam os velhos faraós ressuscitados? Os Homens-Deuses imortalizados?

Seria o nacionalismo islão clamando seus fiéis? Santa Guerra e seus mártires?

*

É a união do desejo de liberdade com o sentido de irmandade.

É a cor bronze de muitos na força de um brado só.

É o Espírito de Osíris em tiros, bandanas e flamas.

*

Força e luta;
Poder,
Vitória.

Ainda mais ácido...

"All Alone"... Um blog é mais um apito na feira borbulhante da Internet. "Seus amiguinhos comentaram seus textos; lindo, charmoso, como uma multidão de outros subterrâneos simpósios efêmeros, na vastidão silenciosa de nomes que passam". É bonito - assumo - veja, é até louvável, mas como também vê; não é lá tão diferente. Gostamos de pensar fazer diferença, não fazemos tanta diferença, pensamos fazer. É uma certa injustiça necessária (são tantas), e bem o que pode ser. Mas, como também vê; não é lá tão diferente.

Você pode não estar gostando muito do tom... E vai piorar muito, camarada. Convenhamos, ficar aqui lendo texto de blog não é crescimento de vida, ou é? Ou, ou, talvez o amigo leitor seja um respeitável medalhão. Meu camarada, Goethe hoje é tão papa de verme quanto eu serei em algum tempo (pouco), e VOCÊ. Quero dizer; acreditamos importância e tomamos tempos para expressar nossas ideias (geralmente inúteis) e lemos as coisas dos nossos amigos (qualidade). Pois bem, mas como também vê; não é lá tão diferente. É melhor rir, meu camarada, essa merda só faz piorar.

Pessimistas ateus, niilistas, céticos profundos, humorados, condenados, bastardos... Mas você é um sujeito de bem e está aqui? Suportando o cheiro de urina das paredes, pode até se divertir. Meu objetivo? Justificar a completa falta de sentido da vida.

Digamos assim, é um livro de autoprejuízo*.


Compêndio de ensaios mórbidos sobre a nossa tolerância de falhas.




Deus está morto, tudo é permitido".


http://daassemblia.blogspot.com/

sexta-feira, 25 de março de 2011

O Jogador


Há indivíduos que passam e ficam como se dados e arremessados. Percorrem a vida em um mesmo estalo. São a tirania da ação sobre suas consequências. Ora conquistadores, ora presidiários; os autênticos jogadores.

(...)

Vencer ou perder, ser ou não ter, esperar ou morrer. Resultantes inquebrantáveis e um jogo complexo demais para se malograr. Isento sempre de atalhos. Todo feito em curvas. Todo indivíduo transmuta uma enorme e limitada engenharia de relações. Interpretações contraditórias e múltiplas que por fim se coadunam. Dificilmente percebido movimento de peças.

Todas as matrizes são arbitrárias. Escapam de julgamentos quaisquer - aprofundadas em causas e efeitos. circunstância de nascimento, genética, necessidades, inimigos naturais, tradição, tudo que rodeia disputa aflige exulta o simulacro da personalidade, asilo tacanho. Aceitar, negar, tributar. O divisível nos confronta.

- Sua música é o ruído branco.

Pó de velhos ossos; hoje, enfim, é mero e preponderantemente humano = "Selva de Pedra". A Natureza vez por outra agita e quebranta essa esquizofrenia. É preciso ou recomendável labutar nele, conduzindo o mais possível na mão o desejo e na impossibilidade palpite de esperar boa ocasião.

- Lá podemos controlar instinto? Influir nas malhas de tantos ímpetos? Não é tudo passado do idêntico futuro?

Cegueiras que vale esquecer, meu amigo. E se já não pode esquecer/

- Como já não posso deixar de jogar

/então que se esqueça de tudo!
Podendo declinar ou tentar a fuga.

- No mais é lucidez e senso de oportunidade

E assim ainda falta!



*



Quando abandonei o curso de Letras pelas emoções das cartas, estérico e febril, das especulações terríveis, abandonei a vida de restrições - Odiada! Impossível! - Mergulho de longa torrente de riscos que me colocaram aqui [Em uma ante-sala de um escritório de agiotismo] Com a vida em risco e sem truques. - E por diabos não me chamam logo? Sei que na próxima, na próxima - Eu poderia escolher, dizem. "Fortuna", "azar", "destino", "vontade"; "livre-arbítrio"; punição e recompensa. Palavras que só fazem dilatar minha ansiedade... Sorte no Jogo, sorte... É a minha vez.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Instinto de Nacionalidade - Por Machado de Assis

QUEM EXAMINA a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de nacionalidade. Poesia, romance, todas as formas literárias do pensamento buscam vestir-se com as cores do país, e não há negar que semelhante preocupação é sintoma de vitalidade e abono de futuro. As tradições de Gonçalves Dias, Porto Alegre e Magalhães são assim continuadas pela geração já feita e pela que ainda agora madruga, como aqueles continuaram as de José Basílio da Gama e Santa Rita Durão. Escusado é dizer a vantagem deste universal acordo. Interrogando a vida brasileira e a natureza americana, prosadores e poetas acharão ali farto manancial de inspiração e irão dando fisionomia própria ao pensamento nacional. Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo.

Sente-se aquele instinto até nas manifestações da opinião, aliás mal formada ainda, restrita em extremo, pouco solícita, e ainda menos apaixonada nestas questões de poesia e literatura. Há nela um instinto que leva a aplaudir principalmente as obras que trazem os toques nacionais. A juventude literária, sobretudo, faz deste ponto uma questão de legítimo amor-próprio. Nem toda ela terá meditado os poemas de Uruguai e Caramuru com aquela atenção que tais obras estão pedindo; mas os nomes de Basílio da Gama e Durão são citados e amados, como precursores da poesia brasileira. A razão é que eles buscaram em roda de si os elementos de uma poesia nova, e deram os primeiros traços de nossa fisionomia literária, enquanto que outros Gonzaga por exemplo, respirando aliás os ares da pátria, não souberam desligar-se das faixas da Arcádia nem dos preceitos do tempo. Admira-se-lhes o talento, mas não se lhes perdoa o cajado e a pastora, e nisto há mais erro que acerto.

Dado que as condições deste escrito o permitissem, não tomaria eu sobre mim a defesa do mau gosto dos poetas arcádicos nem o fatal estrago que essa escola produziu nas literaturas portuguesa e brasileira. Não me parece, todavia, justa a censura aos nossos poetas coloniais, iscados daquele mal; nem igualmente justa a de não haverem trabalhado para a independência literária, quando a independência política jazia ainda no ventre do futuro, e mais que tudo quando entre a metrópole e a colônia criara a história a homogeneidade das tradições, dos costumes e da educação. As mesmas obras de Basílio da Gama e Durão quiseram antes ostentar certa cor local do que tornar independente a literatura brasileira, literatura que não existe ainda, que mal poderá ir alvorecendo agora.

Reconhecido o instinto de nacionalidade que se manifesta nas obras destes últimos tempos, conviria examinar se possuímos todas as condições e motivos históricos de uma nacionalidade literária, esta investigação (ponto de divergência entre literatos), além de superior às minhas forças, daria em resultado levar-me longe dos limites deste escrito. Meu principal objeto é atestar o fato atual; ora, o fato é o instinto de que falei, o geral desejo de criar uma literatura mais independente.

A aparição de Gonçalves Dias chamou a atenção das musas brasileiras para a história e os costumes indianos. Os Timbiras, I-Juca Pirama, Tabira e outros poemas do egrégio poeta acenderam as imaginações; a vida das tribos, vencidas há muito pela civilização, foi estudada nas memórias que nos deixaram os cronistas, e interrogadas dos poetas, tirando-lhes todos alguma coisa, qual um idílio, qual um canto épico.

Houve depois uma espécie de reação. Entrou a prevalecer a opinião de que não estava toda a poesia nos costumes semibárbaros anteriores à nossa civilização, o que era verdade, — e não tardou o conceito de que nada tinha a poesia com a existência da raça extinta, tão diferente da raça triunfante, — o que parece um erro.

É certo que a civilização brasileira não está ligada ao elemento indiano, nem dele recebeu influxo algum; e isto basta para não ir buscar entre as tribos vencidas os títulos da nossa personalidade literária. Mas se isto é verdade, não é menos certo que tudo é matéria de poesia, uma vez que traga as condições do belo ou os elementos de que ele se compõe. Os que, como o Sr. Varnhagen, negam tudo aos primeiros povos deste país, esses podem logicamente excluí-los da poesia contemporânea. Parece-me, entretanto, que, depois das memórias que a este respeito escreveram os Srs. Magalhães e Gonçalves Dias, não é lícito arredar o elemento indiano da nossa aplicação intelectual. Erro seria constituí-lo um exclusivo patrimônio da literatura brasileira; erro igual fora certamente a sua absoluta exclusão As tribos indígenas, cujos usos e costumes João Francisco Lisboa cotejava com o livro de Tácito e os achava tão semelhantes aos dos antigos germanos, desapareceram, é certo, da região que por tanto tempo fora sua; mas a raça dominadora que as freqüentou colheu informações preciosas e nô-las transmitiu como verdadeiros elementos poéticos. A piedade, a minguarem outros argumentos de maior valia, devera ao menos inclinar a imaginação dos poetas para os povos que primeiro beberam os ares destas regiões, consorciando na literatura os que a fatalidade da história divorciou.

Esta é hoje a opinião triunfante. Ou já nos costumes puramente indianos. tais quais os vemos n'Os Timbiras, de Gonçalves Dias, ou já na luta do elemento bárbaro com o civilizado, tem a imaginação literária do nosso tempo ido buscar alguns quadros de singular efeito dos quais citarei, por exemplo, a Iracema, do Sr. J. Alencar, uma das primeiras obras desse fecundo e brilhante escritor.

Compreendendo que não está na vida indiana todo o patrimônio da literatura brasileira, mas apenas um legado, tão brasileiro como universal, não se limitam os nossos escritores a essa só fonte de inspiração. Os costumes civilizados, ou já do tempo colonial, ou já do tempo de hoje, igualmente oferecem à imaginação boa e larga matéria de estudo. Não menos que eles, os convida a natureza americana cuja magnificência e esplendor naturalmente desafiam a poetas é prosadores. O romance, sobretudo, apoderou-se de todos esses elementos de invenção, a que devemos; entre outros, os livros dos Srs. Bernardo Guimarães, que brilhante e ingenuamente nos pinta os costumes da região em que nasceu, J. de Alencar, Macedo, Sílvio Dinarte (Escragnolle Taunay), Franklin Távora, e alguns mais.

Devo acrescentar que neste ponto manifesta-se às vezes uma opinião, que tenho por errônea: é a que só reconhece espírito nacional nas obras que tratam de assunto local, doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais da nossa literatura. Gonçalves Dias por exemplo, com poesias próprias seria admitido no panteão nacional; se excetuarmos Os Timbiras, os outros poemas americanos, e certo número de composições, pertencem os seus verses pelo assunto a toda a mais humanidade, cujas aspirações, entusiasmo, fraquezas e dores geralmente cantam; e excluo daí as belas Sextilhas de Frei Antão, que essas pertencem unicamente à literatura portuguesa, não só pelo assunto que o poeta extraiu dos historiadores lusitanos, mas até pelo estilo que ele habilmente fez antiquado. O mesmo acontece com os seus dramas, nenhum dos quais tem por teatro o Brasil. Iria longe se tivesse de citar outros exemplos de casa, e não acabaria se fosse necessário recorrer aos estranhos. Mas, pois que isto vai ser impresso em terra americana e inglesa, perguntarei simplesmente se o autor do Song of Hiawatha não é o mesmo autor da Golden Legend, que nada tem com a terra que o viu nascer, e cujo cantor admirável é; e perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e Romeu têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se, entretanto, Shakespeare não é, além de um gênio universal, um poeta essencialmente inglês.

Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região, mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço. Um notável crítico da França, analisando há tempos um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo que se podia ser bretão sem falar sempre de tojo, assim Masson era bem escocês, sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um scotticismo interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial.

Estes e outros pontos cumpria à crítica estabelecê-los, se tivéssemos uma crítica doutrinária, ampla, elevada, correspondente ao que ela é em outros países. Não a temos. Há e tem havido escritos que tal nome merecem, mas raros, a espaços, sem a influência quotidiana e profunda que deveram exercer. A falta de uma crítica assim é um dos maiores males de que padece a nossa literatura; é mister que a análise corrija ou anime a invenção, que os pontos de doutrina e de história se investiguem, que as belezas se estudem, que os senões se apontem, que o gosto se apure e eduque, e se desenvolva e caminhe aos altos destinos que a esperam.



O ROMANCE

De todas as formas várias as mais cultivadas atualmente no Brasil são o romance e a poesia lírica; a mais apreciada é o romance, como aliás acontece em toda a parte, creio eu. São fáceis de perceber as causas desta preferência da opinião, e por isso não me demoro em apontá-las. Não se fazem aqui (falo sempre genericamente) livros de filosofia, de lingüística, de crítica histórica, de alta política, e outros assim, que em alheios países acham fácil acolhimento e boa extração; raras são aqui essas obras e escasso o mercado delas. O romance pode-se dizer que domina quase exclusivamente. Não há nisto motivo de admiração nem de censura, tratando-se de um país que apenas entra na primeira mocidade, e esta ainda não nutrida de sólidos estudos. Isto não é desmerecer o romance, obra d'arte como qualquer outra, e que exige da parte do escritor qualidades de boa nota.

Aqui o romance, como tive ocasião de dizer, busca sempre a cor local. A substância, não menos que os acessórios, reproduzem geralmente a vida brasileira em seus diferentes aspectos e situações. Naturalmente os costumes do interior são os que conservam melhor a tradição nacional; os da capital do país, e em parte, os de alguma cidades, muito mais chegados à influência européia, trazem já uma feição mista e ademanes diferentes. Por outro lado, penetrando no tempo colonial, vamos achar uma sociedade diferente, e dos livros em que ela é tratada, alguns há de mérito real.

Não faltam a alguns de nossos romancistas qualidades de observação e de análise, e um estrangeiro não familiar com os nossos costumes achará muita pagina instrutiva. Do romance puramente de análise, raríssimo exemplar temos, ou porque a nossa índole não nos chame para aí, ou porque seja esta casta de obras ainda incompatível com a nossa adolescência literária.

O romance brasileiro recomenda-se especialmente pelos toques do sentimento, quadros da natureza e de costumes, e certa viveza de estilo mui adequada ao espírito do nosso povo. Há em verdade ocasiões em que essas qualidades parecem sair da sua medida natural, mas em regra conservam-se estremes de censura, vindo a sair muita coisa interessante, muita realmente bela. O espetáculo da natureza, quando o assunto o pede, ocupa notável lugar no romance, e dá páginas animadas e pitorescas, e não as cito por me não divertir do objeto exclusivo deste escrito, que é indicar as excelências e os defeitos do conjunto, sem me demorar em pormenores. Há boas páginas, como digo, e creio até que um grande amor a este recurso da descrição, excelente, sem dúvida, mas (como dizem os mestres) de mediano efeito, se não avultam no escritor outras qualidades essenciais.

Pelo que respeita à análise de paixões e caracteres são muito menos comuns os exemplos que podem satisfazer à crítica; alguns há, porém, de merecimento incontestável. Esta é, na verdade, uma das partes mais difíceis do romance, e ao mesmo tempo das mais superiores. Naturalmente exige da parte do escritor dotes não vulgares de observação, que, ainda em literaturas mais adiantadas, não andam a rodo nem são a partilha do maior número.

As tendências morais do romance brasileiro são geralmente boas. Nem todos eles serão de princípio a fim irrepreensíveis; alguma coisa haverá que uma crítica austera poderia apontar e corrigir. Mas o tom geral é bom. Os livros de certa escola francesa, ainda que muito lidos entre nós, não contaminaram a literatura brasileira, nem sinto nela tendências para adotar as suas doutrinas, o que é já notável mérito. As obras de que falo, foram aqui bem-vindas e festejadas, como hóspedes, mas não se aliaram à família nem tomaram o governo da casa Os nomes que principalmente seduzem a nossa mocidade são os do período romântico, os escritores que se vão buscar para fazer comparações com os nossos, — porque há aqui muito amor a essas comparações — são ainda aqueles com que o nosso espírito se educou, os Vítor Hugos, os Gautiers, os Mussets, os Gozlans, os Nervals.

Isento por esse lado o romance brasileiro, não menos o está de tendências políticas, e geralmente de todas as questões sociais, — o que não digo por fazer elogio, nem ainda censura, mas unicamente para atestar o fato. Esta casta de obras, conserva-se aqui no puro domínio de imaginação, desinteressada dos problemas do dia e do século, alheia às crises sociais e filosóficas. Seus principais elementos são, como disse, a pintura dos costumes, e luta das paixões, os quadros da natureza, alguma vez o estudo dos sentimentos e dos caracteres; com esses elementos, que são fecundíssimos, possuímos já uma galeria numerosa e a muitos respeitos notável.

No gênero dos contos, à maneira de Henri Murger, ou à de Trueba, ou à de Ch. Dickens, que tão diversos são entre si, têm havido tentativas mais ou menos felizes, porém raras, cumprindo citar, entre outros, o nome do Sr. Luís Guimarães Júnior, igualmente folhetinista elegante e jovial. É gênero difícil, a despeito da sua aparente facilidade, e creio que essa mesma aparência lhe faz mal, afastando-se dele os escritores, e não lhe dando, penso eu, o público toda a atenção de que ele é muitas vezes credor.

Em resumo, o romance, forma extremamente apreciada e já cultivada com alguma extensão, é um dos títulos da presente geração literária. Nem todos os livros, repito, deixam de se prestar a uma crítica minuciosa e severa, e se a houvéssemos em condições regulares creio que os defeitos se corrigiriam, e as boas qualidades adquiririam maior realce. Há geralmente viva imaginação, instinto do belo, ingênua admiração da natureza, amor às coisas pátrias, e além de tudo isto agudeza e observação. Boa e fecunda terra, já deu frutos excelentes e os há de dar em muito maior escala.



A POESIA

A ação de crítica seria sobretudo eficaz em relação à poesia. Dos poetas que apareceram no decênio de 1850 a 1860, uns levou-os a morte ainda na flor dos anos, como Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu, cujos nomes excitam na nossa mocidade legítimo e sincero entusiasmo, e bem assim outros de não menor porte. Os que sobreviveram calaram as liras; e se uns voltaram as suas atenções para outro gênero literário, como Bernardo Guimarães, outros vivem dos louros colhidos, se é que não preparam obras de maior tomo, como se diz de Varela, poeta que já pertence ao decênio de 1860 a 1870. Neste último prazo outras vocações apareceram e numerosas, e basta citar um Crespo, um Serra, um Trajano, um Gentil-Homem de Almeida Braga, um Castro Alves, um Luís Guimarães, um Rosendo Moniz, um Carlos Ferreira, um Lúcio de Mendonça, e tantos mais, para mostrar que a poesia contemporânea pode dar muita coisa; se algum destes, como Castro Alves, pertence à eternidade, seus versos podem servir e servem de incentivo às vocações nascentes.

Competindo-me dizer o que acho da atual poesia, atenho-me só aos poetas de recentíssima data, melhor direi a uma escola agora dominante, cujos defeitos me parecem graves, cujos dotes — valiosos e que poderá dar muito de si, no caso de adotar a necessária emenda.

Não faltam à nossa atual poesia fogo nem estro. Os versos publicados são geralmente ardentes e trazem o cunho da inspiração. Não insisto na cor local; como acima disse, todas as formas a revelam com mais ou menos brilhante resultado, bastando-me citar neste caso as outras duas recentes obras, as Miniaturas de Gonçalves Crespo e os Quadros de J. Serra, versos estremados dos defeitos que vou assinalar. Acrescentarei que também não falta à poesia atual o sentimento da harmonia exterior. Que precisa ela então? Em que peca a geração presente? Falta-lhe um pouco mais de correção e gosto, peca na intrepidez às vezes da expressão, na impropriedade das imagens na obscuridade do pensamento. A imaginação, que há deveras, não raro desvaira e se perde, chegando à obscuridade, à hipérbole, quando apenas buscava a novidade e a grandeza. Isto na alta poesia lírica, — na ode, diria eu, se ainda subsistisse a antiga poética; na poesia íntima e elegíaca encontram-se os mesmos defeitos, e mais um amaneirado no dizer e no sentir, o que tudo mostra na poesia contemporânea grave doença, que é força combater.

Bem sei que as cenas majestosas da natureza americana exigem do poeta imagens e expressões adequadas. O condor que rompe dos Andes, o pampeiro que varre os campos do Sul, os grandes rios, a mata virgem com todas as suas magnificências de vegetação, — não há dúvida que são painéis que desafiam o estro, mas, por isso mesmo que são grandes, devem ser trazidos com oportunidade e expressos com simplicidade. Ambas essas condições faltam à poesia contemporânea, e não é que escasseiem modelos, que aí estão, para só citar três nomes, os versos de Bernardo Guimarães, Varela e Álvares de Azevedo. Um único exemplo bastará para mostrar que a oportunidade e a simplicidade são cabais para reproduzir uma grande imagem ou exprimir uma grande idéia. N'Os Timbiras, há uma passagem em que o velho Ogib ouve censurarem-lhe o filho, porque se afasta dos outros guerreiros e vive só. A fala do ancião começa com estes primorosos versos:

São torpes os anuns, que em bandos folgam.
São maus os caititus que em varas pascem:
Somente o sabiá geme sozinho,
E sozinho o condor aos céus remonta.

Nada mais oportuno nem mais singelo do que isto. A escola a que aludo não exprimiria a idéia com tão simples meios, e faria mal, porque o sublime é simples. Fora para desejar que ela versasse e meditasse longamente estes e outros modelos que a literatura brasileira lhe oferece. Certo, não lhe falta, como disse, imaginação; mas esta tem suas regras, o estro leis, e se há casos em que eles rompem as leis e as regras, é porque as fazem novas, é porque se chamam Shakespeare, Dante, Goethe, Camões.

Indiquei os traços gerais. Há alguns defeitos peculiares a alguns livros, como por exemplo, a antítese, creio que por imitação de Vítor Hugo Nem por isso acho menos condenável o abuso de uma figura que, se nas mãos do grande poeta produz grandes efeitos, não pode constituir objeto de imitação, nem sobretudo elementos de escola.

Há também uma parte da poesia que, justamente preocupada com a cor local, cai muitas vezes numa funesta ilusão. Um poeta não é nacional só porque insere nos seus versos muitos nomes de flores ou aves do país, o que pode dar uma nacionalidade de vocabulário e nada mais. Aprecia-se a cor local, mas é preciso que a imaginação lhe dê os seus toques, e que estes sejam naturais, não de acarreto. Os defeitos que resumidamente aponto não os tenho por incorrigíveis; a crítica os emendaria; na falta dela, o tempo se incumbirá de trazer às vocações as melhores leis. Com as boas qualidades que cada um pode reconhecer na recente escola de que falo, basta a ação do tempo, e se entretanto aparecesse uma grande vocação poética, que se fizesse reformadora, é fora de dúvida que os bons elementos entrariam em melhor caminho, e à poesia nacional restariam as tradições do período romântico.



O TEATRO

Esta parte pode reduzir-se a uma linha de reticência. Não há atualmente teatro brasileiro, nenhuma peça nacional se escreve, raríssima peça nacional se representa. As cenas teatrais deste país viveram sempre de traduções, o que não quer dizer que não admitissem alguma obra nacional quando aparecia. Hoje, que o gosto público tocou o último grau da decadência e perversão, nenhuma esperança teria quem se sentisse com vocação para compor obras severas de arte. Quem lhas receberia, se o que domina é a cantiga burlesca ou obscena, o cancã, a mágica aparatosa, tudo o que fala aos sentidos e aos instintos inferiores?

E todavia a continuar o teatro, teriam as vocações novas alguns exemplos não remotos, que muito as haviam de animar. Não falo das comédias do Pena, talento sincero e original, a quem só faltou viver mais para aperfeiçoar-se e empreender obras de maior vulto; nem também das tragédias de Magalhães e dos dramas de Gonçalves Dias, Porto Alegre e Agrário. Mais recentemente, nestes últimos doze ou quatorze anos, houve tal ou qual movimento Apareceram então os dramas e comédias do Sr. J. de Alencar, que ocupou o primeiro lugar na nossa escola realista e cujas obras Demônio Familiar e Mãe são de notável merecimento. Logo em seguida apareceram várias outras composições dignas do aplauso que tiveram tais como os dramas dos Srs. Pinheiro Guimarães, Quintino Bocaiúva e alguns mais, mas nada disso foi adiante. Os autores cedo se enfastiaram da cena que a pouco e pouco foi decaindo até chegar ao que temos hoje, que é nada.

A província ainda não foi de todo invadida pelos espetáculos de feira; ainda lá se representa o drama e a comédia, — mas não aparece, que me conste, nenhuma obra nova e original. E com estas poucas linhas fica liquidado este ponto.



A LÍNGUA

Entre os muitos méritos dos nossos livros nem sempre figura o da pureza da linguagem. Não é raro ver intercalados em bom estilo os solecismos da linguagem comum, defeito grave, a que se junta o da excessiva influência da língua francesa. Este ponto é objeto de divergência entre os nossos escritores. Divergência digo, porque, se alguns caem naqueles defeitos por ignorância ou preguiça, outros há que os adotam por princípio, ou antes por uma exageração de princípio.

Não há dúvida que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer que a nossa pare no século de quinhentos, é um erro igual ao de afirmar que a sua transplantação para a América não lhe inseriu riquezas novas. A este respeito a influência do povo é decisiva. Há, portanto, certos modos de dizer, locuções novas, que de força entram no domínio do estilo e ganham direito de cidade.

Mas se isto é um fato incontestável, e se é verdadeiro o principio que dele se deduz, não me parece aceitável a opinião que admite todas as alterações da linguagem, ainda aquelas que destroem as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma. A influência popular tem um limite, e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razão.

Feitas as exceções devidas não se lêem muito os clássicos no Brasil. Entre as exceções poderia eu citar até alguns escritores cuja opinião é diversa da minha neste ponto, mas que sabem perfeitamente os clássicos. Em geral, porém, não se lêem, o que é um mal. Escrever como Azurara ou Fernão Mendes seria hoje um anacronismo insuportável. Cada tempo tem o seu estilo. Mas estudar-lhes as formas mais apuradas da linguagem, desentranhar deles mil riquezas, que, à força de velhas se fazem novas, — não me parece que se deva desprezar. Nem tudo tinham os antigos, nem tudo têm os modernos; com os haveres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum.

Outra coisa de que eu quisera persuadir a mocidade é que a precipitação não lhe afiança muita vida aos seus escritos. Ha um prurido de escrever muito e depressa; tira-se disso glória, e não posso negar que é caminho de aplausos. Há intenção de igualar as criações do espírito com as da matéria, como se elas não fossem neste caso inconciliáveis. Faça muito embora um homem a volta ao mundo em oitenta dias; para uma obra-prima do espírito são precisos alguns mais.

Aqui termino esta notícia. Viva imaginação, delicadeza e força de sentimentos, graças de estilo, dotes de observação e analise, ausência às vezes de gosto, carências às vezes de reflexão e pausa, língua nem sempre pura, nem sempre copiosa, muita cor local, eis aqui por alto os defeitos e as excelências da atual literaturas brasileira, que há dado bastante e tem certíssimo futuro.




FONTE: http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/BT4522147.html#[4]%20NOT%C3%8DCIA%20DA%20ATUAL%20LITERATURA%20BRASILEIRA.%27

sexta-feira, 18 de março de 2011

Voyeur ocidental: Todos os muitos Apocalipses


É por Voltaire, em primeiro lugar, que encontramos uma análise mais direta das origens da religião cristã. Sem os parênteses típicos dos escolásticos e pensadores mais modestos. Considerado em paralelo Barão D'Holbach e seu "Cristianismo Revelado" - embora a obra seja menos historicista e mais sociológica.

O conceito de Apocalipse do Cristianismo, como todo o mais, é resultado último de uma miscelânea de tendências puritanas tanto do Judaísmo em crise quanto do Helenismo tardio. É defendido pela primeira vez com a eloquência usual por Justino, o mártir, nascido em Flávia Neápolis, principado romano em região síria. Como então vindouro reino dos mil anos, em Jerusalém. Em seu "Comentários sobre Isaías", alegando evidências em João, o evangelista. Defende a volta dos judeus à terra da promissão após o fim da última Tefutzah (diáspora de 70. d.C.), a comunhão com os convertidos, e a soberania do Cristo sobre a Terra (Parusia). A ideia de "et mille per annos" (mil anos), era na numerologia misticista antiga do velho mundo um símbolo de mudança e renovação.

O desenvolvimento do messianismo no seio das seitas entusiastas que criariam a Cristandade está diretamente ligado aos conflitos das forças imperiais contra os rebeldes palestinos. A Palestina ao longo da Era atual mostrou resistência à dominação de Roma em todos os aspectos. Partindo do campo religioso, grupos fanáticos, e atingindo por fim magistrados e forças militares. Enquanto as raízes da nova fé cresciam na palestina e fora dela, em obscuridades conjecturais, a tensão entre o imperialismo romano e a sua decadência, e a província da região palestina marcada por um "ostracismo" intelectual, atingiram picos sérios e que resultaram na parcial destruição da nação judaica.

Ao que parece, e sabemos por Tácito, foi através de Nero que os cristãos - grupo mais ou menos inteligível e prolífero entre classes inferiores de regiões colonizadas - acataram ares de criminalidade. Embora a atitude romana quanto ao religioso fosse tolerante, era considerado Superstitio Illicita (superstição/culto ilícito). Tão hermético quanto o Judaísmo, porém perigosamente proselitista, as "missões" dos apóstolos eram vistas como possíveis complôs e insubordinações. Nero, em ocasião de seu desastroso governo, utilizou a já existente animosidade contra os cristãos para tentar inutilmente se fortalecer enquanto imperador - o famoso incêndio de Roma (64 d.C.). Daí em diante, a perseguição aos nazarenos foi oficializada (por extensão reptiliana os politicamente revoltados na Palestina).

Embora inocentados do incêndio e de desejos revolucionários por Tácito e também Plínio, intelectualmente os cristãos ainda permaneceriam em condição de desprezo durante a rápida cristianização das classes romanas começando por baixo. Visto como Exitiabilis Superstitio (culto funesto), tanto por seu caráter puritana quanto por seu louvor a vidas e mundos futuros e distantes. "Religião contrária à Natureza", segundo pensavam os patrícios estóicos e republicanos epicuristas. A Metafísica - exegese platônica - não existia como lucidez na mente helena.

O Apocalipse era então - mais ou menos como hoje - um misto de esperança e desespero religioso amalgamado em revolução política. A grande vingança contra Roma, os imperialistas, a força dos homens. Uma grande vingança contra a Natureza, por assim dizer. Tertuliano, considerado herege por fim, Santo Irineu, definidor das "boas referências" sobre Jesus, e Orígenes, o mesmo que castrou a si mesmo, consideravam o Apocalipse muito real, e totalmente físico. Eusébio entre outros e o Concílio de Laodiceia (363-364 d.C.) desconsideraram o Apocalipse. Todos inspirados por Deus e igualmente certos.

No ano 1.000 d.C. o velho mundo estava banhado em guerras e precariedade social, intelectual e econômica.

Com o desenvolvimento das Escolas o Apocalipse (um tanto atrasado) tomou aspectos mais... Santos, metafísicos e subjetivos.

"Para todos S. João ainda padejava na sepultura, fazendo a terra levantar e baixar continuamente. Entanto esses mesmos senhores certos de que S. João não estava de todo morto, também estavam certos de que ele não escrevera o Apocalipse. Os advogados do reinado de mil anos, não obstante, mantiveram-se irremovíveis em sua opinião. Sulpício Severo (História Sagrada, livro 9) chama insensatos e ímpios aos que não acatavam o Apocalipse. Afinal, depois de muita dúvida, muita oposição de concílio a concílio prevaleceu o parecer de Sulpício Severo. Deslindado o mistério, decidiu a igreja ser o Apocalipse incontestavelmente de S. João. Não há, pois, apelar. Atribuíram as comunhões religiosas cada qual a si as profecias desse livro. Nele viram os ingleses as revoluções da Grã Bretanha. Os luteranos, as convulsões da Alemanha. Os reformados da França, o reinado de Carlos IX e a regência de Catarina de Médicis. Todos tiveram igualmente razão".

Voltaire

sexta-feira, 4 de março de 2011

Sala Vazia - Um Koan científico.

Nos dias em que Gerald Jay Sussman era ainda novato, veio Marvin Minsky uma vez e sentou com ele, enquanto fazia um hacking em um PDP-6.

"O que você está fazendo?" perguntou Minsky.
"Estou treinando uma rede neural artificial com fios de forma aleatória para disputar o jogo da velha contra o programa" Sussman respondeu.
"Por que uma rede com fios de forma aleatória?", Perguntou Minsky.
"Eu não quero que ele tenha qualquer preconceito de como jogar", disse Sussman.
Minsky, em seguida, fechou os olhos.
"Por que você fechou os olhos?" Sussman perguntou ao mestre.
"Assim a sala estará vazia."

Naquele momento, Sussman foi esclarecida.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Finiverim - A Parábola

"Velho e febril bibliômano, procurando em velhas negras e renegadas estantes por antigo relicário (maior e sublime dentre os relicários), prova última de sua paixão, sucumbiu em desvário. Ao encontrá-lo portanto, atônico, pungente, nele o relicário colossal fantasma; sacro escrito, guardado, palavras em mortuária fatura. Jamais existidas.

Dizia assim;

O mais forte suplanta o fraco, e o múltiplo abandona o único. Danado; derradeiro dos fortes, único e invariado. Danado do passado, anelo ao passado, força sem poder. Poder, sem haver. Extensão sem contingência, potência sem vontade. Finado, homem último, finadas, palavras caladas, finado, medos aceitos, finado, verbo não-dito, finados, miríades miríades de corpos, finados, miríades de seres, todos os fins, todos os inícios, factus eum... E tu, olho que observa, é o pó do vazio, e o abismo, e o desuso, próprio abismo que contempla. E ele é tu, e tu, nada
.

Cinzas de um velho deus, sagrados escuros. Sucesso de quem tudo desejava reter, e tudo verter. E o sucesso foi ser retido, e pela morte retirado, eliminado, em magnitude, extinguido. Pois ao soar de - nada - Bibliômano inexistiu. Jamais, e em qualquer tempo. Meu amigo,

Aureliano... Teu nome nunca dito: Aureliano".




.
Eu lhe ofereço minha vida.
Você pode me dar eternidade?
O mundo é tão vazio
Eu não posso viver e não quero mais
Eu lhe ofereço minha vida.
Você pode me dar eternidade?
.
(Exitus, E Nomine)

Sub Umbra

(Capítulo extraído do livro “Os Trabalhadores do Mar”, de Victor Hugo)



Às vezes, alta noite, Gilliatt abria os olhos e olhava para a sombra.
Sentia-se extremamente comovido.
Olhar aberto sobre trevas. Situação lúgubre; ansiedade.
Existe a pressão da sombra.


Inexprimível teto de tênebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? É cinza? Milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição.


Esse amálgama de todos os mistérios a um tempo, do mistério cósmico e do mistério fatal, abate a cabeça humana.


A pressão da sombra atua em sentido inverso nas diferentes espécies de almas. O homem, diante da noite, reconhece-se incompleto. Vê a obscuridade e sente a enfermidade. O céu negro é o homem cego. Entretanto, com a noite, o homem abate-se, ajoelha-se, prosterna-se, roja-se, arrasta-se para um buraco, ou procura asas. Quase sempre quer fugir a essa presença informe do desconhecido.


Pergunta o que é; treme, curva-se, ignora; às vezes quer ir lá.
Aonde?
Lá.
Lá? O que é? Que há lá?


Essa curiosidade é evidentemente a das coisas defesas, porque para aquele lado todas as pontes à roda do homem estão cortadas. Mas o desejo atrai, porque é golfão. Onde não vai o pé, vai o olhar, onde o olhar pára, pode continuar o espírito. Não há homem que não tente, por mais fraco e insuficiente que seja. O homem, segundo a sua natureza, investiga ou espera diante da noite. Para uns é rechaçamento, para outros é uma dilatação. O espetáculo é sombrio. Mescla-se a ele o indefinível.


Vai a noite serena? É um fundo de sombra. Vai tempestuosa? É um fundo de fumaça. O ilimitado recusa-se e oferece-se ao mesmo tempo, fechado à experiência, aberto à conjetura. Infinitas picadas de luz tornam mais negra a obscuridade sem fundo. Carbúnculos, cintilações, astros. Presenças verificadas no Ignorado; tremendos reptos para ir tocar esses clarões. São estacas da criação no absoluto; são marcos de distância lá onde já não há distância; é uma espécie de numeração impossível, e toda via real, do canal das profundezas. Um ponto microscópico que fulge, depois outro, mais outro, mais outro; é o imperceptível, é o enorme. Essa luz é um foco, esse foco é uma estrela, essa estrela é um sol, esse sol é um universo, esse universo é nada. Todo número é zero diante do infinito.


Esses universos que nada são, existem. Verificando-os, sente-se a diferença que vai entre ser nada e não ser.
O inacessível ligado ao inexplicável, eis o céu.
Dessa contemplação solta-se um fenômeno sublime: o crescimento da alma pelo assombro.
O medo sagrado é próprio do homem; a besta ignora esse medo. A inteligência acha nesse terror augusto o seu eclipse e a sua prova.


A sombra é uma: vem daí o seu horror. É, ao mesmo tempo, complexa: vem daí o terror. A sua unidade pesa no nosso espírito e saca-lhe a vontade de resistir.


A complexidade faz com que se olhe para todos os lados; parece que se devem recear assaltos súbitos. O homem rende-se e defende-se. Fica em presença de Tudo, daí vem a submissão e de Muitos, daí vem a desconfiança. A unidade da sombra contém um múltiplo. Múltiplo misterioso, visível na matéria, sensível no pensamento. Faz silêncio, razão de mais para espreitar.
A noite – já o disse algures quem escreve estas linhas – é o estado próprio, normal da criação especial de que fazemos parte. O dia, breve na duração como no espaço, é apenas uma proximidade de estrela.


O prodígio noturno universal não se realiza sem atritos, e os atritos de uma tal máquina são as contusões da vida. Os atritos da máquina, é o que chamamos o Mal. Sentimos nessa obscuridade o mal, desmentido latente da ordem divina, blasfêmia implícita do fato rebelde ao ideal. O mal acrescenta uma teratologia de mil cabeças ao vasto conjunto cósmico. O mal está presente em tudo para protestar. É furacão e atormenta a marcha de um navio, é caos e entrava o desabrochar do mundo. O Bem tem a unidade, o Mal tem a ubiqüidade. O mal desconcerta a vida, que é uma lógica. Faz devorar a mosca pelo pássaro, e o planeta pelo cometa. O mal é um borrão na natureza.


A obscuridade noturna peja-se de uma vertigem. Quem a aprofunda, submerge-se e debate-se. Não há fadiga comparável e esse exame de trevas. É o estudo de um apagamento.


Não há lugar definitivo para pousar o espírito. Pontos de partida sem ponto de chegada. O cruzamento das soluções contraditórias, todos os ramos da dúvida a um tempo, a ramificação dos fenômenos esfoliando-se sem limite sob uma impulsão indefinida, mistura de todas as leis, uma promiscuidade insondável que faz com que a mineralização vegete, com que a vegetação viva, com que o pensamento pese, com que o amor irradie e a gravitação ame; a imensa frente de ataque de todas as questões desenvolvendo-se na obscuridade sem limites; o entrevisto esboçando o ignorado; a simultaneidade cósmica em plena aparição, não para o olhar, mas para a inteligência, no espaço indistinto; o invisível tornado visão. É a sombra. O homem está embaixo. Não conhece os pormenores, mas suporta, em qualidade proporcionada ao seu espírito, o peso monstruoso do conjunto. Esta obsessão impelia os pastores caldeus à astronomia. Saem dos poros da criação revelações involuntárias; faz-se por si mesma uma transudação de ciência e invade o ignorante. Debaixo dessa impregnação misteriosa torna-se o solitário, muitas vezes sem ter consciência, um filósofo natural.


A obscuridade é indivisível. É habitada. Habitada sem deslocação pelo absurdo; habitada também com deslocação. Move-se ali dentro alguma coisa, o que é para assustar. Uma formação sagrada desenvolve ali as suas fases. Premeditações, potências, destinos intencionais laboram aí em comum uma obra desmedida. Vida terrível e horrível é o que existe ali dentro. Há vastas evoluções dos astros, a família estelar, a família planetária, o pólen zodiacal, o Quid divinum das correntes, dos eflúvios, das polarizações e das alterações; há o amplexo e o antagonismo, um magnífico fluxo e refluxo da antítese universal, o imponderável em liberdade no meio dos centros; há a seiva nos globos, a luz fora dos globos, o átomo errante, o germe esparso, curvas de fecundação, encontros de ajuntamento e de combate, profusões inauditas, distâncias que parecem sonhos, circulações vertiginosas, mergulhos de mundos no incalculável, prodígios perseguindo-se nas trevas, um maquinismo definitivo, sopro de esferas em fuga, rodas que se sente andarem, existe e esconde-se; é o inexpugnável fora de alcance. Fica-se convencido até à opressão. Tem-se em si uma evidência negra. Nada se pode agarrar. Esmaga-nos o impalpável.


Por toda a parte o incompreensível; em parte alguma o inteligível.
E a tudo isto acrescentai a terrível questão: esta Imanência é um Ser?
Está-se debaixo da sombra. Olha-se. Escuta-se.


Entretanto a terra sombria caminha e rola, as flores têm consciência desse movimento enorme; a silena abre-se às 11 horas da noite e o hemerocale às 5 horas da manhã. Impressível regularidade.
Em outras profundidades a gota de água faz-se mundo, o infusório pulula, a fecundidade gigante sai do animálculo, o imperceptível ostenta a sua grandeza, o sentido inverso da imensidade manifesta-se; uma diatoméia produz em uma hora 1 milhar e 300 milhões de diatoméias.


Que proposição de todos os enigmas ao mesmo tempo!
Está aí o irredutível.


Constrange-se-nos à fé. Crer por força, eis o resultado. Mas para estar tranqüilo não basta ter fé. A fé tem uma estranha necessidade de forma. Daí vêm as religiões. Nada é tão opressivo como uma crença sem delineamento.
Qualquer que seja o pensamento e a vontade, qualquer que seja a resistência interior, olhar a sombra não é olhar, é contemplar.


Que fazer desses fenômenos? Como mover-se debaixo de sua convergência? É impossível decompor esta pressão. Que devaneio se deve ajuntar a todos esses confinantes misteriosos? Quantas revelações abstrusas, simultâneas, obscurecendo-se em sua própria multidão, espécie de balbuciar do verbo! A sombra é um silêncio; mas esse silêncio diz tudo. Surge majestosamente um resultado: Deus. Deus é a noção do incompreensível. Essa noção está no homem. Os silogismos, as querelas, as negações, os sistemas, as religiões passam por cima sem diminuí-la. A sombra inteira afirma aquela noção. Mas turva-se tudo o mais. Imanência formidável. A inexprimível harmonia das forças manifesta-se pelo equilíbrio dessa obscuridade. O universo pende; nada tomba. O deslocamento incessante e desmedido opera-se sem acidente e sem fratura. O homem participa desse movimento de translação e à quantidade de oscilação que suporta que suporta chama ele destino. Onde começa o destino? Onde acaba a natureza? Que diferença há entre um acontecimento e uma estação, entre um pesar e uma chuva, entre uma virtude e uma estrela? Uma hora não é uma onda? Continua o movimento da roda, sem responder ao homem, em sua revolução impassível. O céu estrelado é uma visão de rodas, de pêndulas e de contrapesos. É a contemplação suprema forrada de suprema meditação. É toda a realidade e mais a abstração. Nada além daí. O homem sente-se preso. Fica à discrição da sombra. Não há evasão possível. Vê-se ele naquele composto de rodas, é parte integrante de um Todo ignorado, sente o desconhecido que está fora dele. Isto é o anuncio sublime da morte. Que angústia e, ao mesmo tempo, que fascinação! Aderir ao infinito e por essa aderência atribuir-se uma imortalidade necessária, quem sabe? Uma eternidade possível sentir na prodigiosa vaga desse silêncio universal e obstinação insubmersível do eu! Contemplar os astros e dizer: “Sou uma alma como vós!” Contemplar a obscuridade e dizer: “Sou um abismo como tu”.


Essas enormidades são a noite.
Tudo isso aumentado, pela solidão, pesava em Gilliatt.
Compreendia-o ele? Não. Sentia-o? Sim.
Gilliatt era um grande espírito turvado e um grande coração selvagem.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O que é Cristianismo? - Por Nietzsche

Chama-se Cristianismo a religião da compaixão. – A compaixão está em oposição a todas as paixões tônicas que aumentam a intensidade do sentimento vital: tem ação depressora. O homem perde poder quando se compadece. Através da perda de força causada pela compaixão o sofrimento acaba por multiplicar-se. O sofrimento torna-se contagioso através da compaixão; sob certas circunstancias pode levar a um total sacrifício da vida e da energia vital – uma perda totalmente desproporcional à magnitude da causa (– o caso da morte de Nazareno). Essa é uma primeira perspectiva; há, entretanto, outra mais importante. Medindo os efeitos da compaixão através da intensidade das reações que produz, sua periculosidade à vida mostra-se sob uma luz muito mais clara. A compaixão contraria inteiramente lei da evolução, que é a lei da seleção natural. Preserva tudo que está maduro para perecer; luta em prol dos desterrados e condenados da vida; e mantendo vivos malogrados de todos os tipos, dá à própria vida um aspecto sombrio e dúbio. A humanidade ousou denominar a compaixão uma virtude (– em todo sistema de moral superior ela aparece como uma fraqueza –); indo mais adiante, chamaram-na a virtude, a origem e fundamento de todas as outras virtudes – mas sempre mantenhamos em mente que esse era o ponto de vista de uma filosofia niilista, em cujo escudo há a inscrição negação da vida. Schopenhauer estava certo nisto: através a compaixão a vida é negada, e tornada digna de negação – a compaixão é uma técnica de niilismo. Permita-me repeti-lo: esse instinto depressor e contagioso opõe-se a todos os instintos que se empenham na preservação e aperfeiçoamento da vida: no papel de defensor dos miseráveis, é um agente primário na promoção da decadência – compaixão persuade à extinção... É claro, ninguém diz “extinção”: dizem “o outro mundo”, “Deus”, “a verdadeira vida”, Nirvana, salvação, bem-aventurança... Essa inocente retórica do reino da idiossincrasia moral-religiosa mostra-se muito menos inocente quando se percebe a tendência que oculta sob palavras sublimes: a tendência à destruição da vida. Schopenhauer era hostil à vida: esse foi o porquê de a compaixão, para ele, ser uma virtude... Aristóteles, como todos sabem, via na compaixão um estado mental mórbido e perigoso, cujo remédio era um purgativo ocasional: considerava a tragédia como sendo esse purgativo. O instinto vital deveria nos incitar a buscar meios de alfinetar quaisquer acúmulos patológicos e perigosos de compaixão, como os presentes no caso de Schopenhauer (e também, lamentavelmente, em toda a nossa décadence literária, de St. Petersburgo a Paris, de Tolstoi a Wagner), para que ele estoure e se dissipe... Nada é mais insalubre, em toda nossa insalubre modernidade, que a compaixão cristã. Sermos os médicos aqui, sermos impiedosos aqui, manejarmos a faca aqui – tudo isso é o nosso serviço, é o nosso tipo de humanidade, é isso que nos torna filósofos, nós, hiperbóreos! –

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

NÃO É EXATAMENTE O POEMA DE BLAKE

Pequena latência,
Em minha cuca
Bruta, cortai
...Teu jogo vão.

Não serei, cefaleia,
Um igual teu?
Ou não és tu
Tão Ser, como eu?

Pois amo a dança,
Canções, bebida,
Até que a mão cega
Me corta a vida.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Lento, animal amargo

Lento, animal amargo,
que sou, tenho sido,
amargo desde o nó de poeira e água e vento,
que nos primevos dos homens pediam ao Senhor.

Amargo como esses minerais amargos,
que nas noites de aguda solidão -
Sendo única e a mesma solidão -
trepam por minha garganta,
e, como crostas silenciosas,
asfixiam, matam, ressuscitam.

Amargo como essa voz amarga
pré-natal, pré-substancial, que diz:
nossa palavra, outrora nosso caminho,
que morreu a nossa morte,
e que em todo momento redescobrimos.

Amargo desde dentro,
desde não ser,
— minha pele, minha língua —
desde a primeva vida,
anúncio, profecia.

Lento desde séculos,
remoto — nada há detrás —,
Longínquo, distante, desconhecido.

Lento, amargo animal
que sou, que tenho sido.

(Jaime Sabines)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

descrição honesta de mim próprio bebendo um whisky no aeroporto, digamos de mineápolis



Os meus ouvidos escutam cada vez menos as conversas, os meus
[olhos enfraquecem, continuando porém insaciados.

Vejo as pernas delas de mini-saia, de calças,
[ou de tecidos vaporosos,

Espreito cada uma, os seus rabos e coxas, pensativo,
[embalado por sonhos porno.

Ó lascivo velho jarreta, estás com os pés para a cova
[e não para os jogos e brincadeiras da juventude.

Mas não é verdade, faço apenas aquilo que sempre fiz,
[compondo as cenas desta terra, movido pela
[imaginação erótica.

Não desejo justamente estas criaturas, desejo tudo,
e elas são como um sinal de convívio extático.

Não tenho culpa de sermos feitos assim, metade de
[contemplação

desinteressada e metade de apetite.

Se depois de morrer for para o Céu, lá, terá de ser como aqui,
apenas hei-de livrar-me dos sentidos entorpecidos
[e dos ossos pesados.

Transformado em puro olhar, continuarei a absorver
[as proporções
do corpo humano, a cor dos lírios, a rua parisiense
[na madrugada de Junho.
Enfim, toda a inconcebível, a inconcebível pluralidade
[das coisas visíveis.



Czeslaw Milosz


Trad: Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Conto - Deus de Deus

Pensava em meu momento de solitude a natureza de Cristo: Verbo consubstancial com o Pai, vero Deus de vero Deus, luz da luz; duas naturezas e duas vontades resultantes da hipóstase. E que nos procedeu à vivificante pneuma, Espírito Santo, orgão divino do Logos. Relembrado e revivido na comemoração da eucaristia, corpo e alma nutridos de seu sangue adorado e comido em forma do pão; presente aos olhos, sensível ao paladar, todavia anulado.

Redentor carpinteiro, anti-hercúleo, abaixo e acima do mundo, obra mestra de Aleijadinho.

Os sinos purificam o templo dos murmúrios. Olhos, lábios, contritos fiéis em conjuro. Um Pater do santo homem, a graça eficaz contemplando a irmandade. Eu. Sozinho, no banco a meditar.

Meu frio olhar aos homens; igual ao Altíssimo seus anjos e santos.

Sonho platônico levado aos povos, não pelos reis, mas, terapeutas, estóicos tardios, o traidor dos fariseus, e um profundo desejo de morte de um império. O amor pela dor pela morte do Deus...

... Litúrgica e gregária e comtemplada paz:

Mas roubo assim minha calma por um inquietar: "Sagrado és". O homem consagrado consagra e o consagrado é feito santo. O espinho e a fraqueza da carne. Toma pelos cabelos, pelos pequenos e inocentes lábios, olhar novo e puro, torna sagrado. Utiliza, rasga, afronta, viola. Mata. Reza adora e dorme.

Por cima do altar o olhar do Cristo, por ele, pela assembléia, nós. A estátua olha e não vê.

Amém.

"Va bene, va bene, arrivo. Aspettate un momento".
(Papa Alexander VI)

Conto - Criaturas da Noite

Gosto do Cais, sabe. Gosto de ambientes assim. Gosto de ambientes tacanhos, não gosto de barulho, muita gente ou muito bicho. Quero dizer: gosto de insalubridade. Ares rarefeitos, vertigens. Para poucos. A neblina caiu pesada cobrindo a costa. Frio, é início de Inverno acho. Ali, veja os dois homens se aproximando com suas mãos nos bolsos dos casacos. Sim.

Gostou? É um bom terno. Bom. Legítimo. Não sou de usar boa roupa, boas roupas não são confortáveis. São perecíveis e exuberantes demais. Preciso de boa apresentação e boa apresentação significa sobriedade. Uso geralmente ternos baratos - ternos baratos que parecem originais. Excelentes falsificações. É como meu serviço. Sou um jogador, jogo poker.

Acho que bem lá, ao fundo, lá; um farol. Uma luz fraca, veja, cruza embaraçada a névoa. Uma fraca luz, perdida... Não estou perdido, a noite me cai bem. Passo a maior parte do tempo fugindo do Sol. Em salões, hotéis, bares, campeonatos na TV. Jogos altos. Estou falando de dívidas empresariais, ações no petróleo árabe, licitações de obras públicas. Jogo com figurões da lei e fora dela. Jogo para outros também. Sou bom, aprendi com meu pai.

Meu pai foi um perdido. Viveu de bicos, e foi morto por agiotas. Eu era um garoto esperto, rápido venci fracassado após fracassado até chegar aos grandalhões. Precisa ser cascudo. Hoje, eu sou um grandalhão. Considero ser um grandalhão não ter o rabo preso necessariamente com ninguém. Tipo você agora.

Mas, na boa. Desde que cheguei aquela luz pisca e insinua, parece um olhar de mulher. Você está vendo? Não fique tão silencioso, é estranho. Está aqui e parece não estar. Fique esperto e calado, mas não assim. Parece um pinto. Eu tenho disso, sou imaginativo, fico divagando, me contradigo e me irrito com facilidade. É a minha resiliência. É importante não parecer perdido - além de não estar perdido. Vai pegar a manha com o tempo, Senhor Quero-ser-miliciano.

Está vendo os dois otários? São dois safados mandados aqui pra me ferrar. Uma bicha qualquer que eu limpei na mesa de cartas. Mande os dois para o Inferno, e nosso delegado vai ficar sabendo do bom serviço.

... Não duraria muito. Não tem estômago pra coisa.

[três tiros. Eu não vejo a cena. Estou interessado no farol. Alguém vem... Vai levar uma bala na cabeça independente de quem for]

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Notas Mitológicas de Sombra

I - O templo entre Aqueronte e Cocito

Quem nunca observou avidamente um acidente? Quem nunca praguejou com genuína fúria? Quem nunca riu de uma dolorosa trapalhada alheia?

Em todas essas ocasiões manifestamos partes de nossa alma que normalmente segredamos. Em uma visão mais atual, todas essas ações superficialmente indesejadas estão ligadas ao ego inferior ou à Sombra (como Jung definiria). A Sombra é a oculta animalidade, é o conjunto de nossas mais desequilibradas emoções, ela é o campo metafísico dos sentimentos rejeitados pela rotina da consciência. Por que existe a Sombra? Ironicamente para nossa proteção. Ela é o alerta contra os infortúnios (Aqueronte), o depósito de nossas lamentações (Cocito), a jaula de nossa raiva (Flegetonte), o lar dos tormentos (Erídano) e o oculto da alma (Lete).

Alguém atento questiona: "Por que SUPERCIALMENTE indesejadas?"

Porque, na verdade, como qualquer outra coisa, a Sombra busca sua perpétua subsistência (sua inércia). Ela reclama por ação quando permanecemos muito tempo em estado de calmaria, incita quando estamos furiosos, ela determina quando devemos fugir ou "perder o jogo de cintura"; Muito além, como um cão selvagem, ela consome o seu dono quando não é alimentada ou domada.

Como domá-la? Você já sabe. Quando ridicularizamos alguém, quando batemos com fúria na mesa do escritório, quando berramos um palavrão, e - mais louvável - quando admiramos um arrepiante trabalho artístico de terror.



II - Sacerdotes de Perséfone


Por que alguém dedicaria a sua veia artística para um trabalho tão penoso quanto a arte das sombras?

Principalmente pelos infortúnios da vida, pela predileção por assuntos mórbidos, ou em uma linguagem mais poética pela atração por coisas obscuras. Geralmente todos esses movimentos estão conectados e, não raro, a escolha pelo terror é pouco consciente e muito instintiva. A facilidade e o fascínio de alguns está ligado a envergadura de sua Sombra.

Escrever Terror é penoso, como já dito, por uma série de fatores: O reconhecimento é praticamente nulo (embora crescente em nosso período decadente), o trabalho artístico é seguramente o mais difícil, o público realmente dedicado é pequeno e a própria criação exige bastante disposição mental. Para escrever Terror é preciso dispor de uma perseverança tão grande quanto a imortalidade dos vampiros.

O melhor para o escritor é deixar os seus textos sombrios como "alternativos". Trabalhar temas mais gerais e levar em conta as tendências de momentos. É uma das muitos verdades ridículas do mundo.



III - Os corredores sombrios

Nem só de sustos vive a obra de um escritor sombrio. O que é sombrio em uma época pode não ser em alguma outra, a única coisa que une todos os homens é que, invariavelmente, suas sombras estão bem atrás deles. Em todas as épocas existe um dogma, uma verdade escondida, uma hipocrisia, algum assunto severo e, para o autor sombrio, o assunto severo é o seu deleite. Um dos pontos negativos do Terror é também um dos seus pontos positivos: De-vastidão.

Em algumas épocas são os monstros as criaturas terríveis, em outras os deuses negros e também em outras a própria maldade humana; seus medos, seus receios, suas fúrias, e Fúrias. Em todos essas casos algo está presente: A Sombra.


Em cada caso é afetada de uma forma, embora o eixo seja sempre o mesmo (os rios do Hades).

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sebastião no sonho

Para Adolf Loos



A mãe teve a criança sob a lua branca,
À sombra da nogueira, do sabugueiro secular,
Embriagada pela seiva da papoula, do lamento do melro; .
E silencioso

Sobre elas inclinava-se piedoso um rosto barbado,

Discreto, na escuridão da janela; e velharias
Dos antepassados
Jaziam podres. arnor e fantasia outonal.

Escuro o dia do ano, triste infância,
Quando o rapaz desceu às águas frias, peixes prateados,
Quietude e semblante;
Quando petrificado jogou-se aos corcéis em disparada,
E em noite cinzenta sua estrela vinha sobre ele.

Ou quando pela mão fria da mãe
À tardinha passava pelo outonal cemitério de São Pedro;
Um frágil cadàver jazia inerte no escuro da câmara
E erguia sobre este as pálpebras geladas

Mas ele era um pequeno pássaro em galhos nus,
O sino ao longo do novembro da noite,
O silêncio do pai, dorrnindo ao descer a espiral crepuscular.

Paz da alma. Noite de invemo solitário,
As escuras sombras dos pastores no velho lago;
Criança na cabana de palha; quão discreta
Baixava o rosto em febre negra.


- Georg Trakl.


(tradução: Cláudia Cavalcante)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Memento Crucius



Rasgos decadentes deliceram a estrada enquanto caminhas lento - We are tearing holes in decaying the road as you walk slow.









Imagem: Michael Reedy.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Bons Selvagens


O caso de Solly Boudissan revela junto ao dos brasileiros ilhados nos distúrbios egípcios a fragilidade, inocência e ineficiência de nossas relações exteriores. Não sabemos nos dar ao respeito em política internacional, refletindo nosso execrável multiculturalismo global:

Nosso Carnaval releva a vocação nacional ao tráfico de pessoas, nosso mercado sexual, nossa servil e baixa atitude grosseira "típica" e que gostamos tanto de exaltar com filmes esteriotipados. E assim mesmo, queremos ser respeitados como se não vivêssemos midiaticamente para patrocinar a vulgaridade. Não, nem todo brasileiro é um piegas tarado, arrasador sedutor latino, ou um negro favelado psicopata. Sabemos bem. Somos também trabalhadores esforçados, donas de casa, professores, alunos, pessoas que gostam de praia e comida temperada, e que conservam uns pés frutígeros no quintal, escutam pássaros quando estão em silêncio, convivem em um ambiente com preponderância do elemento natural. Sabemos, e duvidamos da qualidade de nossa normalidade. Preferimos o exótico*: o exagerado, o piegas, o irrealístico curioso o suficiente para agradar nossos pais e agiotas do Norte. Não, não somos nós em totalidade, mas, somos muitos pensando ou arquitetando o velho e decadente teatro romântico de bons selvagens.

O efeito de tacanha tradição é estanque. Mesmo com os progressos emergentes da redemocratização. O Itamaraty é tímido em suas posturas, ambíguo por indecisão, barganha de modo equivocado com as grandes potências e cá no subúrbio do mundo e da América é visto com desconfiança justificada. Enquanto os E.U.A. enviaram aviões aos seus cidadãos no ocaso egípcio, e árabes sempre cobram satisfações das sátiras ocidentais sobre o Islão, brasileiros e mais brasileiras são vitimados, assassinados, humilhados, tendo apenas a certeza da indiferença covarde da própria nação.

Diplomacia não é turismo, meus representantes. A nação deveria ser um local de empatia e identificação política. Enquanto jornalistas são mostrados, outros tantos anônimos permanecem na obscuridade trabalhando como escravos ou passando por constrangimentos.

Por misericórdio nossos compatriotas no Egito estão bem. Por misericórdia divina, naturalmente, ou pelo mais doce acaso. Sendo mortos, torturados e esquartejados, suas supostas almas e familiares não receberiam mais que notas de lamentação. Com uns trocadinhos para o ônibus.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Cão danado

Entre uma baforada e outra trocava um dedo de prosa com certos amigos do serviço. Ritmo cansado de um dia corrido e cansado. Gente cansada, assuntos cansados.

Só o Diabo sabe o quanto um tabaco é bom pra relaxar. Gosto de tragadas rápidas trocando os dedos, deixando a fumaça sair naturalmente pela boca. Uma leve batidinha no cigarro pra puxar a fumaça, um soprinho suave: A fumaça vai levantando, fluando pela boca...

Rua suja, gente suja, mundo sujo.

De Deus ao cunilingue, assuntos banais. Gente passando nas ruas. Vida de subúrbio, vida tacanha. Pé na rua, baforada, conversa fiada, baforada, olhar a gente suja, baforada, pé na rua, baforada.

Só o Diabo sabe o quanto é bom uma baforada de tabaco...

Fitando bem esses sujeitos, novatos nessa vida bandida, nessa vida ralada, vida vivida, penso comigo. Sinceramente. Meu velho; estamos no mesmo barco furado.

E baforada, cão danado, e baforada...

Perdição; ou Conto não muito contado.


A primeira regra para um mochileiro perdido é não parecer perdido. Não só mochileiro, para um atravessador é bom não parecer perdido. É uma regra geral.

"- Então, Gargantinha, é o mesmo de sempre, correto? Sutil, ligeiro, saiu chegou".

O foda é a regularidade. Existe um monte de nuances bobos fudidamente cruciais em negócios desse tipo. Qualquer olhar mal dado gera uma dor de cabeça do cacete, e depois é aquilo. Você não pensa na coisa em si, pensa em concluir o serviço. É um serviço. É um negócio como outro qualquer, cheio de especulação e azar. Fica atento, faz o seu, tenta entender o esquema o máximo possível para se manter com algum pé no chão. Não faz perguntas, faz a tua parte. Não pense muito nisso, e mantenha a mente em Deus, muita gente faz pra se desculpar. Eu sou filho de malandros, vivo de malandragem, comigo é natural. Eu nem sou revolucionário ou coisa do tipo, nem sofredor, ou vida louca. Eu sou um merda qualquer. Eu sou o melhor atravessador que tu vai encontrar em qualquer buraco do Rio de Janeiro à Colômbia, Zaire, Miami ou Holanda. Eles me chamam Gargantinha - Uma droga de um apelido ridículo, com uma história ridícula por trás, é gay pra cacete.

O negócio é que, seja você bandido, traficante, espião ou investidor de alto rendimento, você vai precisar de alguém para lavar o teu dinheiro. É uma necessidade. Se for bandido, vai precisar de comparsas, sendo traficante, funcionários, espião, contatos, e investidor de alto rendimento tudo isso mais um assassino profissional de vez em quando. Pode aparecer aventureiro, mas esses caras têm uma história de merda por trás. Pelo menos, os caras que conheço dos meus trabalhos. É um exemplo. Não dá pra fazer nada pelas costas do Governo; alfândega, rodovias, navio, avião, burros, juiz. É gente pra caramba pra subornar, e gente pra fazer o serviço, é uma indústria como outra qualquer. Eu sou um dos simples, e gente como eu tenta não parecer descartável.

Dinheiro, drogas e mulheres, meu amigo; a recompensa. E pé na estrada. No aperto, urubu é meu lôro. É verdade. Vive-se.

Mas o foda mesmo é que estamos em um réquiem bizarro (réquiem). Definitivamente, estava tudo muito certo. Avião, hotel, encontro. Eu sou uma raridade nisso, nessa de atravessar. Eu tinha que estar estabelecendo ditaduras para o Governo Americano, meu irmão, eu sou uma cobra. Mas é, sim, exato: me pegaram. Alguém me ferrou. Tempo demais, um passo errado, irritar alguém, comer a mulher errada, azar. Azar, pode ser azar, o azar só não existe para quem já venceu na vida. É uma droga, esse negócio de esperar a própria morte. É a tortura, enfim, você sente dor, e fica confuso. E vamos manter a lucidez... Eu quero sair sereno e bruto, como sempre fui... Cortaram minhas pernas, certo? É estúpido. Essa coisa de arrancar as unhas, e mergulhar na água, choque, toda essa coisa. Medo. Medo e confusão. Por que diabos cortaram minhas pernas? Eu serei queimado? Morrer na porra do México. Morrer na porra do México é foda. Morrer na porra do México, traído, sem as pernas. Eu não sei se é o ser ou o não-ser, como diz nos filmes.

A bala vem ao meu crânio, e é só medo, confusão, e espanto. Acho que não estou realmente pensando em algo. No fim, eu não sei.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Decálogo para pensar a cultura atual

1. A cultura é o que há de mais valioso em uma sociedade: o que coroa sua existência, o que lhe permite formular suas estratégias de crescimento, o refinamento de sua visão do mundo, a elaboração da felicidade de seus membros.

2. A pobreza material é criada pela pobreza cultural: nossa produção de miséria é nosso fracasso na criação de uma cultura vital. Em vez de nos atarmos a uma visão tradicional da cultura se faz necessário reformula-la para reverter à situação.

3. Cultura é criatividade, não respeito. Atrevimento e ousadia, não repetição e rigor (mortis). Cultura não é venerar sempre aos mesmos. Mais que venerar é respirar e querer, viver a própria vida com autenticidade e vigor.

4. Internet é cultura: se lê menos, se escreve mais, de outra forma, os índices para compreender a cultura de 50 anos atrás não podem aplicar-se hoje. Existe um mundo novo.

5. O pensamento crítico inibe a produção de cultura: temos idolatrado a objeção, a distância objetiva, a suspeita e a interpretação cínica. Isto gera a queda; não nós salva, nos oprime.

6. Cultura é pensamento: ver as coisas de novo, não aferrar-se as mesmas idéias de sempre para salvar-se do mundo, mas sim, buscar idéias novas para querê-lo e produzi-lo.

7. Cultura é mercado. Produtos, consumo, inversão, ambição, ganância, desejo de mais feito arte. Lutar com a sociedade de consumo é ignorância, visão estreita, debilidade mental.

8. Cultura é arte de viver. O que os espanhóis demonstram o prazer de estar ocioso e ser, de quere-se e enfrentar os conflitos. Não distanciar-se das coisas e sentir-se superior, ser, pelo contrario, capaz de querê-las mais.

9. Cultura é crescimento político. Reformas - se reformas são necessárias -, oposição inteligente e não somente partido hegemônico. Aceitação dos limites do mundo político e trabalho para defender e melhorar as instituições humanas.

10. Atualizar os valores é fortalecer a cultura. Dar-se conta de que os valores não morrem, mas sim, que se transformam, aprender a ver que existem valores novos que são superiores a muitos dos valores perdidos. Devemos nos colocar a altura das circunstâncias.


Fonte: http://tribunadafilosofia.blogspot.com/2010/07/decalogo-para-pensar-cultura-atual.html

sábado, 8 de janeiro de 2011

O desbravador do campo de centeio

O maior mérito de O apanhador no campo de centeio talvez consista no fato do texto tratar, de um modo jovial e pouco clássico, das complexas questões da juventude: A indefinição do papel social do jovem, a sexualidade, a amizade, a relação com os pais, com a religião, com a escola.

J.D. Salinger, embora fosse ele próprio um homem obscuro e retraído, parte orgânica daquela angústia poética muito característica da primeira metade do século XX (Traço fundamental do Modernismo; angústia, intranquilidade interior manifesta, reflexo de um tempo de guerras e ruína), já em O apanhador revela um espírito varguardista independente; uma outra maneira de lidar com a guerra e a ruína, tão característica da segunda metade do século XX (geração beat, rock in roll, metal, contra-cultura).

Na primeira metade do século XX a guerra é física e o repúdio é interiorizado, com a Guerra Fria, a tortura é interiorizada, e a reação exteriorizada.

Holden Caulfield já não é apenas um homem angustiado formalmente inquiridor, tão pouco um jovem romântico, ele é um anti-herói. Sarcástico, cínico, dono de um sentido crítico aberto e agressivo ao seu modo. Tem algo de debochado, de depravado, de subversivo, de despreocupado, de anárquico e autocrata - Elementos suficientes para alisar a vaidade de adolescentes e pessoas mais excêntricas. Ele encanta pelas suas imperfeições, exageros e digressões vãs. Exala um "desejo de incorreção", Muito daquilo que estava naqueles pré-adolescentes e adolescentes que viveram a sombra do Macartismo. O Colégio Pensey, do qual Caulfield foi expulso, entendemos, é um pouco da própria América de Salinger, ou do próprio mundo. Falsamente elegante, hipócrita, repressor.

Existe também uma certa mensagem messiânica no texto, uma esperança acalentada, um sonho, mas não apenas uma abstração, porém um grito, uma ação. Ou um certo infantilismo, dizem os psicólogos. Caulfield deseja "salvar as crianças":

Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa q eu queria fazer. Sei que é maluquice

Holden Caulfield, de Salinger, é uma crítica ao formalismo da formação educacional e infantil de sua época. O autor, ali, nega o autoritarismo por um estado livre do indivíduo. Nega o ditador, e afirma o apanhador, nega a realidade crua, massificante, de concreto e velhacaria, preferindo as brisas de um campo de centeio.