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Pederneira. Substância muito usada no fabrico de corações humanos. (Ambrose Bierce)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Perdição; ou Conto não muito contado.


A primeira regra para um mochileiro perdido é não parecer perdido. Não só mochileiro, para um atravessador é bom não parecer perdido. É uma regra geral.

"- Então, Gargantinha, é o mesmo de sempre, correto? Sutil, ligeiro, saiu chegou".

O foda é a regularidade. Existe um monte de nuances bobos fudidamente cruciais em negócios desse tipo. Qualquer olhar mal dado gera uma dor de cabeça do cacete, e depois é aquilo. Você não pensa na coisa em si, pensa em concluir o serviço. É um serviço. É um negócio como outro qualquer, cheio de especulação e azar. Fica atento, faz o seu, tenta entender o esquema o máximo possível para se manter com algum pé no chão. Não faz perguntas, faz a tua parte. Não pense muito nisso, e mantenha a mente em Deus, muita gente faz pra se desculpar. Eu sou filho de malandros, vivo de malandragem, comigo é natural. Eu nem sou revolucionário ou coisa do tipo, nem sofredor, ou vida louca. Eu sou um merda qualquer. Eu sou o melhor atravessador que tu vai encontrar em qualquer buraco do Rio de Janeiro à Colômbia, Zaire, Miami ou Holanda. Eles me chamam Gargantinha - Uma droga de um apelido ridículo, com uma história ridícula por trás, é gay pra cacete.

O negócio é que, seja você bandido, traficante, espião ou investidor de alto rendimento, você vai precisar de alguém para lavar o teu dinheiro. É uma necessidade. Se for bandido, vai precisar de comparsas, sendo traficante, funcionários, espião, contatos, e investidor de alto rendimento tudo isso mais um assassino profissional de vez em quando. Pode aparecer aventureiro, mas esses caras têm uma história de merda por trás. Pelo menos, os caras que conheço dos meus trabalhos. É um exemplo. Não dá pra fazer nada pelas costas do Governo; alfândega, rodovias, navio, avião, burros, juiz. É gente pra caramba pra subornar, e gente pra fazer o serviço, é uma indústria como outra qualquer. Eu sou um dos simples, e gente como eu tenta não parecer descartável.

Dinheiro, drogas e mulheres, meu amigo; a recompensa. E pé na estrada. No aperto, urubu é meu lôro. É verdade. Vive-se.

Mas o foda mesmo é que estamos em um réquiem bizarro (réquiem). Definitivamente, estava tudo muito certo. Avião, hotel, encontro. Eu sou uma raridade nisso, nessa de atravessar. Eu tinha que estar estabelecendo ditaduras para o Governo Americano, meu irmão, eu sou uma cobra. Mas é, sim, exato: me pegaram. Alguém me ferrou. Tempo demais, um passo errado, irritar alguém, comer a mulher errada, azar. Azar, pode ser azar, o azar só não existe para quem já venceu na vida. É uma droga, esse negócio de esperar a própria morte. É a tortura, enfim, você sente dor, e fica confuso. E vamos manter a lucidez... Eu quero sair sereno e bruto, como sempre fui... Cortaram minhas pernas, certo? É estúpido. Essa coisa de arrancar as unhas, e mergulhar na água, choque, toda essa coisa. Medo. Medo e confusão. Por que diabos cortaram minhas pernas? Eu serei queimado? Morrer na porra do México. Morrer na porra do México é foda. Morrer na porra do México, traído, sem as pernas. Eu não sei se é o ser ou o não-ser, como diz nos filmes.

A bala vem ao meu crânio, e é só medo, confusão, e espanto. Acho que não estou realmente pensando em algo. No fim, eu não sei.

8 comentários:

  1. Muito bom, meu camarada!

    forte e preciso:
    " Essa coisa de arrancar as unhas, e mergulhar na água, choque, toda essa coisa. Medo. Medo e confusão. Por que diabos cortaram minhas pernas?"

    Abraços!

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  2. Bacana, Dom!
    Gargantinha é retrato fiel dos homens-coisa dos sub-mundos.Em suas mochilas restritas não há espaço para alma, nem medo, nem sonhos. Tudo é solidão e migalhas de hedonismo!

    Belo conto!

    Abração!

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  3. Por este conto fodástico de bom, virei sua seguidora já, Dom Ramon!

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  4. um conto na medida certa para a Internet, com a devida eficiência

    parabéns, meu caro!

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  5. Excelente conto. No ponto certo, explorou muito bem o tema.

    Abraço!

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  6. Belo trabalho! "o azar só não existe para quem já venceu na vida", a decadência também é companheira dos outros da margem oposta! "Viver é perigoso" - principalmente, se tratando de um atravessador da estirpe do Gargantinha...

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  7. Ótima escrita, ótimo conto!
    Sucesso!

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